Orlando Margarido – 20/07/22 – 19h55

Instituto Querô e movimento de profissionais da Baixada são faces complementares da mesma luta pela valorização da área.

Com a boa nova de um novo longa-metragem recém-finalizado, a coordenadora do Instituto Querô, Tammy Weiss, abriu sua apresentação nesta quarta pela manhã e traçou um retrato geral da ONG voltada ao audiovisual e suas atividades. O documentário Andor é a segunda produção no formato longa realizada pelos jovens de comunidades da Baixada Santista formados pelo instituto, existente desde 2006.

Sócrates, ficção dirigida por Alexandre Moratto em 2018, o antecedeu com sucesso, inclusive internacional, ao render uma indicação ao ator estreante Christian Malheiros ao Spirit Awards. Nesse caso, Moratto, de família santista, propôs o projeto ao Querô, que o abraçou abrindo a oportunidade para os alunos integrarem a equipe.

Andor, por sua vez, é dirigido por Vitor Vilaverde, nascido em São Vicente e cria da instituição. ˜Como Sócrates, é um filme de apelo social, que é o nosso interesse na formação e produção com esses jovens de baixa-renda “, disse Tammy.

O Andor do título é Andor Steiner, judeu que escapou dos campos de concentração nazistas e veio para o Brasil, onde se tornou um ativista dentro e fora da comunidade judaica, dedicado a contar suas memórias do período. Fazia isso até pouco antes de morrer há dois meses, aos 94 anos. O registro colhe essas lembranças e retorna com ele a Auschwitz, onde esteve prisioneiro. “Andor era o último sobrevivente do holocausto no Brasil, o filme tem essa importância também como documento”, apontou a coordenadora. O lançamento será direto para o streaming ainda neste semestre.

Assim como seus colegas de Querô, o diretor chega ao projeto depois de participar dos curtas-metragens realizados como oficina na formação da turma. Já são 388 títulos concluídos na escola. ˜Um longa é muito caro, complexo na realização, especialmente uma ficção, e o formato se mostra mais viável para eles exercitarem. Isso também explica optarmos por um documentário agora, pois Sócrates foi viabilizado por ser um projeto que nos foi proposto. Tammy lembra que um orçamento médio de um filme como esse seria entre 3 e 4 milhões de reais. Nós fizemos como 80 mil reais, o que dá a ideia de como os alunos se viraram e se dedicarem no projeto”, disse.

Na palestra, ela ainda lembrou dos braços da ONG, como o Querô Comunidade, que atua com educadores ali formados em bairros periféricos da Baixada, como a Vila Progresso. Outro, o Conexões Quero, é um banco de talentos com parcerias com produtoras do Brasil e gigantes como a Netflix para abrir oportunidades dos formandos no mercado de trabalho. Umas das últimas ações é a Vila Criativa, que ocupa um prédio municipal e onde funciona o cine-escola. Em breve terá uma sala de cinema batizada de Carlos Cortez, cineasta e idealizador do Querô, morto em 2018.

Na sequência, o painel Produtores e MABS – Movimento do Cinema reuniu cinco convidados ligados à produção cinematográfica local para debater a situação do audiovisual e seu desenvolvimento na região. Como eixo da conversa, o Movimento Audiovisual da Baixada Santista, iniciativa criada em 2018 que congrega 120 profissionais cadastrados, mas cerca de 1 mil ligados de modo informal. ˜Esse número dá uma ideia da força criativa e de talentos que temos aqui˜, afirmou o diretor Dino Menezes, um dos integrantes do núcleo principal do MABS, ao abrir o debate.

Um desses talentos é o ator e diretos santista Gabriel Muglia. Egresso da primeira turma de oficinas do Instituto Querô, ele conquistou lugares nos principais canais de televisão do país. Ele participou de novelas do SBT e da Globo, além de séries da emissora carioca, como Assédio (2018) e Desalma (2020), esta no Globoplay.

Além disso, Muglia roteirizou e dirigiu no ano passado o longa-metragem Entre Raiz e Asas em parceria com Wlado Herzog. O filme será exibido domingo, as 17h30, no Teatro Guarany. Também presente na roda de bate-papo, Herzog ressaltou que não se pode ficar dependente apenas da iniciativa privada para obtenção de recursos. “Esse apoio já tem um viés, que é o que interessa a empresa para colocar dinheiro; se a necessidade é nossa, somos nós que devemos direcionar o que queremos, que tipo de cinema, mais independente, mais comercial, qual história queremos contar etc., e isso não virá do dinheiro privado””.

Em outra frente problemática, o também produtor lembrou da questão das janelas de exibição, cada vez mais comprometidas em meio ao avanço do streaming e outras mídias. ˜Isso não virá da política por certo, temos que criar alternativas para mostrar nossos filmes˜.

Muglia complementou com a constatação de que as salas de cinema estão cada vez mais vazias para os filmes que não sejam blockbusters. “Precisamos também formar público se queremos estruturar nossa produção de ponta a ponta”.

Ativista conhecido no meio santista, representante do audiovisual no Conselho de Cultura da cidade, o documentarista Eduardo Ferreira criticou uma recente manifestação do secretário municipal de Cultura, Rafael Leal, ao lançar a 10ª edição do Concurso de Apoio a Projetos Culturais Independentes, o Facult. “Ele fala em apostar especialmente no curta-metragem e tornar Santos a capital do formato; acho que não pode haver essa limitação, Santos tem que ser a capital do cinema”, ponderou. Ele ainda defendeu que de modo geral deve se implementar uma lei de caráter definitivo, como política de estado, e não projetos pontuais.

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